Fichamento do texto "Design: obstáculo para remoção de obstáculos"
No ensaio “Design: obstáculo para a remoção de obstáculos?”, Vilém Flusser propõe uma reflexão sobre a natureza paradoxal dos objetos de uso — aqueles criados para facilitar a vida humana, mas que acabam se tornando novos obstáculos. Ele apresenta a “dialética interna da cultura”: o ser humano cria objetos que, com o tempo, passam a impedir seu próprio progresso.
Esses objetos não são neutros: são mediações entre pessoas, carregam significados intersubjetivos e devem ser compreendidos como elementos comunicativos. Flusser problematiza a prática do design voltada unicamente à eficiência técnica, criticando sua tendência a ignorar o aspecto ético e relacional da criação. É possível perceber a complexidade da discussão proposta, pois o próprio autor apresenta argumentos contraditórios e não entrega uma verdade única e conclusiva.
Segundo o autor, a responsabilidade do designer é central, pois suas criações afetam a liberdade dos outros. A cultura contemporânea, marcada por objetos produzidos de forma irresponsável, está presa à materialidade - o foco, ao criar, é na unidade, e não no todo - e ao culto aos “ídolos” - ídolos esses que permitem, contudo, ver o homem por trás dele. No entanto, Flusser vê sinais de mudança: os designs imateriais, como programas de computador, apontam para uma nova forma de cultura — menos centrada na matéria e mais voltada à comunicação entre os homens. Ainda assim, a consciência da efemeridade de toda criação (inclusive a digital) é essencial para se projetar com responsabilidade e ampliar a liberdade na cultura.
Questionamentos em grupo:
1. Por que a consciência da efemeridade dos objetos contribui para a criação responsável?
A consciência da efemeridade dos objetos — ou seja, o entendimento de que todos os objetos de uso (materiais ou imateriais) são transitórios, perecíveis e acabarão sendo descartados — contribui para a criação responsável pois significa reconhecer o limite da própria criação, e isso exige humildade, cuidado e compromisso ético com o outro e com o mundo. É isso que torna o ato de projetar verdadeiramente responsável.
2. Como a humanidade passou a ver objetos como ídolos?
A partir da Renascença, especialmente com o avanço da ciência e da técnica, os criadores começaram a projetar objetos cada vez mais sofisticados, úteis e eficientes. No entanto, essa eficiência acabou por obscurecer a função relacional e comunicativa dos objetos. A atenção passou a se voltar exclusivamente ao seu desempenho objetivo. Ao se concentrar apenas no aspecto material e funcional dos objetos, a cultura começou a ignorar o papel dos objetos como mediadores entre os seres humanos. Assim, os objetos deixaram de ser veículos de comunicação e passaram a ser adorados por si próprios — isto é, idolatrados. Essa idolatria bloqueia a liberdade e empobrece a cultura, porque transforma o mundo em um labirinto de obstáculos brilhantes, mas vazios de sentido humano.
3. Qual é o papel dos designers na transformação mencionada por Flusser?
Designers projetam objetos de uso que, ao mesmo tempo, facilitam a vida e criam novos obstáculos. Por isso, precisam se perguntar como criar objetos que ajudem os outros a prosseguir e não atrapalhem seu caminho. Além disso, todo objeto de uso é uma mediação entre sujeitos. Por isso, o designer é também um comunicador - seu trabalho pode enfatizar a comunicação e o diálogo ou, ao contrário, reforçar a alienação. Nesse sentido, o criador pode ajudar a superar a cultura do "culto aos ídolos" — centrada na adoração dos objetos — e contribuir para uma cultura voltada à comunicação entre pessoas, onde os objetos são transparentes e funcionam como meios, não fins.


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