Teoria do não-objeto

    Sob a égide do conceituado escritor brasileiro Ferreira Gullar, é seguro afirmar que um não-objeto pode ser definido como um objeto criado por um artista, dotado de qualidades específicas que convidam o telespectador à interação, notadamente tátil. 

"O não-objeto não é um antiobjeto mas um objeto especial em que se pretende realizada a síntese de experiências sensoriais e mentais: um corpo transparente ao conhecimento fenomenológico, integralmente perceptível, que se dá à percepção sem deixar resto. Uma pura aparência".

        Ao mencionar a "morte da pintura", o poeta se refere ao fenômeno que dominou os artistas no século XX e lançou luz sobre movimentos como a arte cinética. A representação em duas dimensões já não era suficiente para atingir o objetivo da comunicação, que buscava, cada vez mais, romper barreiras entre o interno e o externo, o público e o privado, a arte e o observador.

   "O problema que Mondrian se propôs não podia ser resolvido pela teoria. Se ele tentou destruir o plano com o uso das grandes linhas pretas que cortam a tela de uma borda a outra – indicando que ela confina com o espaço exterior -, ainda essas linhas se opõem a um fundo, e a contradição espaço-objeto reaparece. Inicia, então, a destruição dessas linhas e o resultado disso está nos seus dois últimos trabalhos, “Broadway Boogie-Woogie” e “Victory Boogie-Woogie”. Mas a contradição não se resolve de fato, e se Mondrian vivesse mais alguns anos talvez voltasse à tela em branco donde partira. Ou partisse dela para a construção no espaço, como o fez Malevitch, ao cabo de experiência paralela".

    O surgimento do não-objeto é resultado de uma onda de revoluções no meio artístico, anunciadas pelas vanguardas europeias, precipuamente o Dadaísmo, que inovou ao incorporar o ready-made ao espaço acadêmico. No entanto, era preciso questionar não só as diretrizes da academia, mas o que, como e por que era o espaço acadêmico. No Brasil, Hélio Oiticica foi quem obteve mais êxito, no período, na tentativa de dissolução das paredes do espaço acadêmico, ao materializar instalações artísticas que promoviam experiências sensoriais completas e dependiam do espectador para o serem. "Tropicália" causou um impacto internacional e influenciou movimentos de outras linguagens da arte, a exemplo do Tropicalismo. 

    O momento histórico pedia por uma revolução: a América do Sul oprimida por regimes ditatoriais, as potências em Guerra Fria, tensões políticas por todo o globo. O cenário artístico borbulhava. Os artistas faziam acontecer, por meio da arte, a mudança que queriam ver no mundo. O não-objeto, então, surge dessa necessidade de coesão social que os artistas observavam no contexto em que estavam inseridos, tanto no percurso da arte acadêmica, quanto no meio político.

"Romper a moldura e eliminar a base não são, de fato, questões de natureza meramente técnica ou física: trata-se de um esforço do artista para libertar-se do quadro convencional da cultura, para reencontrar aquele “deserto” de que nos fala Malevitch, onde a obra aparece pela primeira vez livre de qualquer significação que não seja a de seu próprio aparecimento".

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